
Que vício danado. Chego a casa, vindo do hospital e lá está ele, colado ao computador a clicar desenfradamente no mouse. Clique, clique, cli cli que. O olhar vidrado e a ocupação prolongada no vazio. Uma aparente actividade, uma realização pessoal falhada, ansiosamente à procura de uma construção mas tudo, tudo, na virtual ilusão.
é a merda da quinta, a porcaria das máfiawars, os casinos, o dinheiro, os porcos, ou pior... os amigos. Nem vou começar pelos amigos. Amigos com que troca mensagens, amigas com que flirta, corações que se trocam, presentes com que se engatam. tudo, tudo se passa
naquela cabeça.
e clique, e clique e o olhar concentrado com mais um clique desapaixonadamente convicto.
o ecrã é mínimo mas a actividade intensa.
Eu vim do hospital, cheguei a casa e a merda do ecrã estava com a página aberta numa caixa de diálogo qualquer. Mas espera...eu vim do hospital porque a tua mãe foi internada PORRA!
clique, cli..."estão muito enganados! eu não estou agarrado a isto! estão muito enganados! eu faço muito mais do que só estar no facebook!"
Merda de vício esse, também. Compreendo que preencha o vazio da falta de trabalho. Compreendo que seja uma boa seringa para anestesiar a dor de viver...Não compreendo como é que o mundo cresce dentro daquele ecrã sem que a sua vítima sinta o seu mundo a desabar, as paredes a encolher, o afecto a esmorecer...
E assim se fica, emocionalmente enclausurado nas portas e antecâmaras dos mundos virtuais. Horas de entertenimento artifcial. Tudo é assombrosamente virtual, o verdadeiro mundo das sombras, mais rico e populado que nunca.
O que mais me custa é a negação da vida real. Compreendo que os momentos de dôr sejam duros de aguentar, até mesmo insopurtáveis de superar. Mas não consigo aceitar que o antídoto seja agrilhoar a consciência a um mundo de realizações metafóricas, de relações alfa numéricas ou de distracções dopantes.
Foi a mãe dele que entrou no hospital e fui eu quem sentiu a dificuldade, a dor, e a tristeza. Sou eu que sinto o cansaço de ter ido e voltado, sou eu que me preocupo. Mas ele continua atrás daquela merda de mini ecrã a clicar irritantemente o meu estado de espírito.
Apetecia-me mandar dois berros. Mandava-o fechar o computador e ir ajudar a mulher dele no que fosse. Obrigava-o a ir jogar à bola ou ir ter com os amigos lá fora. Dava-lhe dois berros para ouvir o clique silenciado e o mundo renascer.
Permaneço irritado e perturbado com tudo isto. Nunca pensei que um programa de computador pudesse iludir tanto alguém, ou melhor, nunca pensei que alguém se deixaria iludir tão facilmente com as suas próprias armadilhas.
O que fazer senão permanecer frustrado?
Se pudesse dava-lhe dois berros mas ele é meu pai e sou eu o seu filho. Na vida real, assim o é. Na minha ilusão, pareço mais o pai e ele a criança. Na mais crua realidade, aquela onde ninguém se cruza, ele é quem quiser e eu simplesmente não lhe posso dar dois berros.
Qual a metadona do facebook?

