
A morte parece, à primeira vista, um facto de roptura, de separação, no fundo, de fim. Contudo, a morte gera, muita vezes, o início de uma outra faceta da vida.
Quando alguém morre, o outro, deixado vivo, ver-se-á obrigado a reequacionar a sua própria condição.
Mas a morte pode não significar um fim em termos fácticos. Na verdade, a morte, em sentido metafórico, pode simplesmente significar o fim de algo que existia. Se assim entendermos, morremos e renascemos diversas vezes ao longo da vida.
... então eu morro, saio, decido optar por um caminho diferente daquele que tenho vindo a percorrer; por isto quebro a continuidade nos outros e sigo a minha própria decisão ou, noutros casos, a decisão que foi tomada por mim e que me obrigou a redireccionar-me.
É precisamente neste momento, o da morte anunciada, que desperto a vida nos outros. Desperto nos outros o que de mim neles existe. Enquanto eu estava "vivo" eu não era reconhecido como um EU. Era, simplesmente, um outro, possivelmente a representação de algo. Eu, enquanto vivo, sou arrumado na percepção dos outros da forma que lhes é mais confortável.
Ora, quando "morro", tanto factica como metaforicamente, o "outro" inicia uma viagem interior. Viagem esta que tem por objectivo procurar o meu lugar (o do morto) nele (o vivo)ou, por outras palavras, o "outro" debruçar-se-á realmente sobre o que eu sou e o que fui para ele para poder ter-me referenciado na sua existência.
Esta viagem interior em busca da essência daquele que morre cria uma aproximação entre as pessoas. Uma aproximação "natural" em termos sociais mas pouco natural em termos humanos.
É quando vejo a morte do outro que procuro conhecê-lo. É quando o outro morre que eu valorizo a sua existência enquanto vivo. Este é um processo recorrente no ser humando na medida em que, enquanto ser social, precisa avaliar rapidamente os seus pares para poder encontrar o seu equilíbrio social.
E quando surge a morte, o "outro" deixa de ameaçar a artificial continuidade das coisas. Consequentemente, baixam-se as guardas e surge a verdadeira oportunidade de aproximação.
Quantas vezes não caímos no lamento póstumo e nos prendemos em referências heróicas sobre o defunto? "ele era tão bonzinho...", "era um incompreendido de coração grande", era isto ou aquilo...de "outro" passou a humano!
E a morte, assim, une aqueles que abruptamente separou. Aproxima as diferenças e cria pontes entre os "outros". A vida, essa, era uma constante fonte de separação, recheada de incongruências e de atritos inconciliáveis. Mas a morte, essa derradeira roptura, suaviza os cantos da divergência e perdoa as maiores críticas.
Em vivo é-se alvo. Em morto é-se herói.
Todo este processo desumano mas tido como "natural" desenvolve-se em premissas profundamente erradas do ponto de vista emocional. A oposição ao "outro" vivo existe por diversas razões mas sobretudo devido à sensação de ameaça: o "outro" pode fazer de mim menos "eu". Já a glorifiação do morto tem a sua fonte na culpabilidade que surge após a retrospectiva que se levou a cabo para "arrumá-lo" na nossa vida.
Tanto a ameaça sentida como a culpabilidade dela resultante são sintomas de uma estrutura emocional ainda por aprofundar.
Não será a vida tão mais completa se nos ligássemos aos vivos da mesma forma como nos ligamos aos mortos?
"Até que a morte nos separe", prometem os noivos...Esperemos, então, que vivam para que não tenham de chegar à triste conclusão de que a vida em relação se passou "até que a morte nos una"...