Monday, 21 September 2009

clica-me esta.



Que vício danado. Chego a casa, vindo do hospital e lá está ele, colado ao computador a clicar desenfradamente no mouse. Clique, clique, cli cli que. O olhar vidrado e a ocupação prolongada no vazio. Uma aparente actividade, uma realização pessoal falhada, ansiosamente à procura de uma construção mas tudo, tudo, na virtual ilusão.





é a merda da quinta, a porcaria das máfiawars, os casinos, o dinheiro, os porcos, ou pior... os amigos. Nem vou começar pelos amigos. Amigos com que troca mensagens, amigas com que flirta, corações que se trocam, presentes com que se engatam. tudo, tudo se passa





naquela cabeça.





e clique, e clique e o olhar concentrado com mais um clique desapaixonadamente convicto.





o ecrã é mínimo mas a actividade intensa.





Eu vim do hospital, cheguei a casa e a merda do ecrã estava com a página aberta numa caixa de diálogo qualquer. Mas espera...eu vim do hospital porque a tua mãe foi internada PORRA!





clique, cli..."estão muito enganados! eu não estou agarrado a isto! estão muito enganados! eu faço muito mais do que só estar no facebook!"





Merda de vício esse, também. Compreendo que preencha o vazio da falta de trabalho. Compreendo que seja uma boa seringa para anestesiar a dor de viver...Não compreendo como é que o mundo cresce dentro daquele ecrã sem que a sua vítima sinta o seu mundo a desabar, as paredes a encolher, o afecto a esmorecer...





E assim se fica, emocionalmente enclausurado nas portas e antecâmaras dos mundos virtuais. Horas de entertenimento artifcial. Tudo é assombrosamente virtual, o verdadeiro mundo das sombras, mais rico e populado que nunca.





O que mais me custa é a negação da vida real. Compreendo que os momentos de dôr sejam duros de aguentar, até mesmo insopurtáveis de superar. Mas não consigo aceitar que o antídoto seja agrilhoar a consciência a um mundo de realizações metafóricas, de relações alfa numéricas ou de distracções dopantes.





Foi a mãe dele que entrou no hospital e fui eu quem sentiu a dificuldade, a dor, e a tristeza. Sou eu que sinto o cansaço de ter ido e voltado, sou eu que me preocupo. Mas ele continua atrás daquela merda de mini ecrã a clicar irritantemente o meu estado de espírito.





Apetecia-me mandar dois berros. Mandava-o fechar o computador e ir ajudar a mulher dele no que fosse. Obrigava-o a ir jogar à bola ou ir ter com os amigos lá fora. Dava-lhe dois berros para ouvir o clique silenciado e o mundo renascer.





Permaneço irritado e perturbado com tudo isto. Nunca pensei que um programa de computador pudesse iludir tanto alguém, ou melhor, nunca pensei que alguém se deixaria iludir tão facilmente com as suas próprias armadilhas.


O que fazer senão permanecer frustrado?



Se pudesse dava-lhe dois berros mas ele é meu pai e sou eu o seu filho. Na vida real, assim o é. Na minha ilusão, pareço mais o pai e ele a criança. Na mais crua realidade, aquela onde ninguém se cruza, ele é quem quiser e eu simplesmente não lhe posso dar dois berros.

Qual a metadona do facebook?

Thursday, 30 July 2009

Check out


Viaje, caro leitor, confunda-se um pouco, liberte-se dos preconceitos que tem sobre as mais ínfimas coisas, desde a forma como os outros falam atá à forma como pensam. Deixe de os julgar por um pouco, pior, deixe de ser hipócrita quando sai de casa.


Saia, saia de trás da sua janela. Apesar de ser transparente, continua fechada. Conheça, partilhe, pergunte. Seja curioso. Sabe que nem tudo tem de ser como lhe disseram?


Viaje, caro leitor, não para conhecer o mundo dos outros mas, simplesmente, para conhecer o seu!


Perca as suas referências. Sabe que os estrangeiros não fazem ideia quem é o Rui Veloso. É pena mas não sabem. No entanto, vivem, sofrem, sorriem. Têm uma vida totalemente alienada da sua. Não sabem nem querem saber de si e do seu mundo. Na verdade, não o conhecem. Liberte-se.


Solte as amarras do conhecido e desbrave o caminho da interrogação. Invada-se de questões e de dúvidas. Talvez assim possa descobrir que, dentro de si, existem alguns pilares, só seus...de mais ninguém.


é capaz de ser autónomo, caro leitor? É capaz de conceber a sua individualidade perante todos? Assume essa responsablidade?


então viaje lá fora aí dentro.

Saturday, 25 July 2009

"Até que a morte nos una..."


A morte parece, à primeira vista, um facto de roptura, de separação, no fundo, de fim. Contudo, a morte gera, muita vezes, o início de uma outra faceta da vida.

Quando alguém morre, o outro, deixado vivo, ver-se-á obrigado a reequacionar a sua própria condição.


Mas a morte pode não significar um fim em termos fácticos. Na verdade, a morte, em sentido metafórico, pode simplesmente significar o fim de algo que existia. Se assim entendermos, morremos e renascemos diversas vezes ao longo da vida.


... então eu morro, saio, decido optar por um caminho diferente daquele que tenho vindo a percorrer; por isto quebro a continuidade nos outros e sigo a minha própria decisão ou, noutros casos, a decisão que foi tomada por mim e que me obrigou a redireccionar-me.


É precisamente neste momento, o da morte anunciada, que desperto a vida nos outros. Desperto nos outros o que de mim neles existe. Enquanto eu estava "vivo" eu não era reconhecido como um EU. Era, simplesmente, um outro, possivelmente a representação de algo. Eu, enquanto vivo, sou arrumado na percepção dos outros da forma que lhes é mais confortável.


Ora, quando "morro", tanto factica como metaforicamente, o "outro" inicia uma viagem interior. Viagem esta que tem por objectivo procurar o meu lugar (o do morto) nele (o vivo)ou, por outras palavras, o "outro" debruçar-se-á realmente sobre o que eu sou e o que fui para ele para poder ter-me referenciado na sua existência.


Esta viagem interior em busca da essência daquele que morre cria uma aproximação entre as pessoas. Uma aproximação "natural" em termos sociais mas pouco natural em termos humanos.


É quando vejo a morte do outro que procuro conhecê-lo. É quando o outro morre que eu valorizo a sua existência enquanto vivo. Este é um processo recorrente no ser humando na medida em que, enquanto ser social, precisa avaliar rapidamente os seus pares para poder encontrar o seu equilíbrio social.


E quando surge a morte, o "outro" deixa de ameaçar a artificial continuidade das coisas. Consequentemente, baixam-se as guardas e surge a verdadeira oportunidade de aproximação.


Quantas vezes não caímos no lamento póstumo e nos prendemos em referências heróicas sobre o defunto? "ele era tão bonzinho...", "era um incompreendido de coração grande", era isto ou aquilo...de "outro" passou a humano!


E a morte, assim, une aqueles que abruptamente separou. Aproxima as diferenças e cria pontes entre os "outros". A vida, essa, era uma constante fonte de separação, recheada de incongruências e de atritos inconciliáveis. Mas a morte, essa derradeira roptura, suaviza os cantos da divergência e perdoa as maiores críticas.


Em vivo é-se alvo. Em morto é-se herói.


Todo este processo desumano mas tido como "natural" desenvolve-se em premissas profundamente erradas do ponto de vista emocional. A oposição ao "outro" vivo existe por diversas razões mas sobretudo devido à sensação de ameaça: o "outro" pode fazer de mim menos "eu". Já a glorifiação do morto tem a sua fonte na culpabilidade que surge após a retrospectiva que se levou a cabo para "arrumá-lo" na nossa vida.


Tanto a ameaça sentida como a culpabilidade dela resultante são sintomas de uma estrutura emocional ainda por aprofundar.


Não será a vida tão mais completa se nos ligássemos aos vivos da mesma forma como nos ligamos aos mortos?


"Até que a morte nos separe", prometem os noivos...Esperemos, então, que vivam para que não tenham de chegar à triste conclusão de que a vida em relação se passou "até que a morte nos una"...

Thursday, 16 July 2009

de tempestade em tempestade até à brisa



Surge-me uma imagem: uma bicicleta equilibra-se em movimento - enquanto anda ela mantém-se vertical e não cai para o lado com a força da gravidade. Contudo, se a imobilizarmos, começa a caír para um dos seus lados.



O espírito é idêntico à bicicleta. Isto é, encontra o seu equilíbrio na evolução. Parado, o espírito morre - desiquilibra-se. Neste sentido, apesar de se encontrar no "estado de graça" - fase em que os "astros se alinham" - o espírito, na sua imensa complexidade, continua dinamicamente a evoluir. Ora, a evolução pressupõe a deslocação.



Resta é saber se nos sabemos deslocar sem nos desiquilibrarmos interiormente.



Ora, a vida tende a manter-nos bem dinâmicos. Se resistirmos à evolução que a vida nos imprime, estaremos a falsear a nossa própria condição - ou seja, estaremos a morrer em vez de viver (o que não deixa de ser interessante na medida em que é muito humano querer cristalizar-se as emoções para não ter de enfrentá-las ao ritmo que a vida nos exige - acaba por saír o tiro pela culatra).



Quero dizer, com isto, que a dinâmica imposta pela própria vida irá, em muito, ditar a nossa evolução enquanto seres humanos. Pelo que nos cabe a nós próprios optar por andar em cima da bicicleta e controlá-la em vez de estarmos sentados em cima dela e deixarmo-nos levar pela velocidade. Neste último caso, os resultados poderão ser desastrosos dado que passaremos a ser uma consequência da própria vida em vez de nos orientarmos dentro dela.



Pois se há coisa que é certa, é a de que a acção e a construção é sinónimo de criação. Nós somos seres criativos. A imobilização para nós, seres humanos, é a morte, tanto emocional como física.



Voltando ao ponto inicial, parece-me mais do que natural que um turbilhão traga consigo a tempestade. Na verdade, a entrada nos "turbilhões emocionais" (causados pelos mais diversos motivos) implica a entrada num espaço desconhecido, logo, descontrolado para o nosso espírito inexperiente. Resultado: parece que enfrentamos uma tempestado; perdemos as referências habituais; os pontos de referência movem-se e, finalmente, sentimo-nos profundamente desnorteados.



Isto será assim até ao momento em que voltamos a pegar no guidon da bicicleta e retomamos a sua condução. Ou seja, até ao momento em que começamos a criar novos pontos de referência neste mundo recém surgido e desconhecido, criado por aquilo a que chamei turbilhão emocional.



E assim vivemos nesta constante oscilação entre zonas de conforto e zonas de desconforto. Aprendendo, assim, a cada oscilação, um pouco mais sobre a vida que nos transporta.



Mas tal como a vida pode ser comparada a uma bicicleta que apenas se equilibra em movimento, também a nossa evolução se pode metaforicamente comparar ao crescimento das raízes de uma árvore - quanto mais alta (logo, mais propícia a desiquilibrar-se) mais largas são as suas ráizes - mais base têm.



A vida vai, então, levando-nos a oscilar entre o conhecido e desconhecido, como se cada oscilação fosse mais uma camada de profundidade a ser descoberta. Contudo, cabe-nos humanizar a nossa aprendizagem e alargar as nossas bases emocionais por forma a evitar que cada turbilhão se torne numa tempestade mas sim uma mera brisa. Com sapiência e maturidade, estes turbilhões emocionais passarão de duras batalhas a gloriosas aventuras.



boa viagem.